Paulo Afonso, 3 de julho de 2022

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Última carta de uma mãe esquecida em uma casa de repouso

Com a mão trêmula ela pega a caneta, arranca uma folha amarelada de um caderno velho e com olhos marejados começa a escrever:

Hoje é dia das mães, soube por uma colega de quarto que a filha dela, que há muito tempo não aparecia, vem visitá-la. E eu mais uma vez não terei a quem receber, não que eu não tenha filhos, tenho dois, mas há muito tempo não sei nada deles.

No início quando me colocaram aqui , minha menina vinha me visitar ao menos uma vez por mês, meu príncipe com menos frequência, mas sempre me ligava. Com o passar do tempo, as visitas ficaram cada vez mais escassas enquanto minha saudade e tristeza aumentavam. Meu Joãozinho dizia que andava muito ocupado com o trabalho, não tinha muito tempo para me ligar. Minha menina também alegava ter uma vida muito corrida, precisava cuidar da casa e da minha netinha,Clarinha, que ainda não pude conhecer.

Eu entendo que agora eles têm as vidas deles, mas só Deus sabe o quanto eu sofri para criá-los, quanto da minha vida eu sacrifiquei pelo bem estar deles. Não estou reclamando, mas hoje percebo que só fui útil enquanto tinha saúde para cuidar deles.

Depois que adoeci, cuidaram de mim apenas por uns dias e mesmo assim brigando entre si. Eles não percebiam o quanto a dor emocional que me causavam era maior que as sequelas do meu AVC. Eu tinha esperança de voltar a andar, ter uma vida normal, mas isso não aconteceu. Fui colocada aqui, como uma coisa que já não servia. Aos poucos me esqueceram, aos poucos a “mãeinha” já não fazia mais falta.

Agradeço a Deus por ter tido uma vida feliz. Sempre quis ser mãe e ter uma família. Acreditava que na minha velhice meus filhos cuidariam de mim, infelizmente, não foi assim. Sei que meus dias aqui estão chegando ao fim, meu corpo trêmulo está cada vez mais fraco, estou morrendo aos poucos de saudades e abandono.

Aos meus filhos, Joãozinho e Ester, desejo apenas que meus netos não façam com eles o mesmo que eles fizeram comigo. Eu os amo e sempre os amarei.

Aos que cuidaram de mim nesses últimos momentos de minha vida, gratidão!

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