Paulo Afonso, 19 de junho de 2024

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Salvo por um penico

Esse texto foi originalmente publicado no blog Tribuna Mulungu, aproveito o fim de semana para republicá-lo, pois pretendemos resgatar os textos mais interessantes do blog desativado e trazê-los para o portal, preservando assim esse material. Espero que gostem da leitura.

Anos 60, eu era muito pequeno e por isso não lembro de tudo, mas vou contar o fato a partir das lembranças do que meu pai e minha mãe contavam desse perrengue que meu pai passou.

Morávamos nessa época no acampamento CHESF, ao lado da escola Adozindo Magalhães de Oliveira, hoje parte do Campus 8 da Uneb, não lembro o endereço com precisão, ou era Grupo I Casa 3 ou Grupo 3 Casa I.
Meu pai era motorista da CHESF e trabalhou na empresa por nove anos, antes moramos no Ceará nas cidades de Barro e Cedro por conta do trabalho dele. Minha mãe era dona de Cartório em Pesqueira, Pernambuco e fazia constantes viagens até lá, sempre levando junto suas duas crias, eu e Zé Ivaldo.


A nossa casa era pequena, bem simples, um dos modelos de casa pra “peão”, tinha uma salinha que emendava com a cozinha menor ainda, aonde tinha uma pia em um canto e um fogão elétrico no outro, tinha ainda um banheiro e um quarto apertado.
Na frente da nossa casa havia uma pracinha bem simples criada e cuidada pelos próprios moradores, com poucos bancos e muitas plantas, hibiscos, roseiras, e muitas outras, era simples, mas muito bonitinha.

A pracinha encurtava o nosso caminho até a Rua E, dali até a guarita da rua D era um pulo, não você não leu errado, era guarita mesmo, naquela época um muro de arame farpado (que depois foi transformado em muro de pedra) dividia Paulo Afonso ao meio, de um lado o chamado Acampamento CHESF, do outro o resto da cidade conhecido por Vila Poty, em razão dos barracos cobertos por sacos vazios do tão conhecido Cimento Poty.

Do lado da CHESF as ruas eram planejadas e bem cuidadas, limpas, iluminadas, e havia segurança feita pela guarda da empresa, seus moradores, eram todos funcionários e não pagavam nem água e nem energia. Do outro lado a cidade propriamente dita, sem recursos, em meio ao caos provocado por um rápido crescimento não planejado, faltava tudo. Água só nos chafarizes, o esgoto corria a céu aberto, energia e iluminação publica era luxo de algumas poucas ruas. Na verdade a cidade não deveria existir, não estava nos planos da poderosa estatal.

Houve nessa época uma onda de roubos e furtos no acampamento e minha mãe vivia sobressaltada, tinha medo da própria sombra; Por vezes meu pai trocava de turno e ai pra dormir era complicado em razão do pavor que minha mãe tinha de ladrão.

Acho que o medo atrai coisa ruim e durante alguns dias escutamos barulhos estranhos a noite, minha mãe achou sinais de que teriam forçado a porta e estava a cada dia mais nervosa, todo esse medo fez meu pai trocar o horário com um companheiro de trabalho e ficar em casa a noite para poder tranquiliza-la.

Já havia uma grande mobilização, tanto dos moradores, quanto da segurança da CHESF, pois os roubos e furtos continuavam a acontecer em diversos pontos do acampamento.

Nessa noite fazia muito calor e fomos dormir bem mais tarde que o usual. Por volta da 1 hora da manhã, minha mãe chamou sussurrando apavorada: “Ferreira, Ferreira… tá ouvindo” ao que ele respondeu já se levantando, “cala a boca Vete e me dá a foice”; o quarto era separado da sala por uma cortina fina, e embora estivesse tudo escuro, a luz da lua denunciava a sombra do invasor que acabara de entrar na casa… ao pegar a foice, minha mãe extremamente nervosa, bateu no penico de estanho (essa era uma das manias dela, mesmo com o banheiro a 2 metros de distância tinha que ter um penico debaixo da cama) e, o barulho provocado, alertou o meliante que fugiu em desabalada carreira, meu pai pegou a foice e saiu no seu encalço, perseguindo-o até a vila Poty, se o guarda da guarita da Rua D não tivesse dado uma bobeada, com certeza o bandido teria sido encurralado e preso.

Nesse ínterim porém, minha mãe acordou todo a vizinhança, gritando, chorando e pedindo ajuda em desespero, primeiro por medo do ladrão, e depois, preocupada por que meu pai não retornava da perseguição. O rebuliço foi tão grande que se ajuntou uma multidão na frente da nossa casa, e alguns vizinhos além de acionarem a segurança da empresa, formaram uma pequena patrulha para tentar descobrir qual havia sido o desfecho do episódio.

A espera continuou até por volta das 3 da manhã quando finalmente alguém convenceu minha mãe e as mulheres da vizinhança a voltarem para suas casas com a promessa de em breve lhes trazer noticias do meu pai e lhes garantir que alguns dos homens ficariam acordados fazendo a segurança da rua.

Depois de todas se recolherem, enfim meu pai pode voltar pra casa… ele esteve o tempo todo na pracinha.
É que na hora da raiva, saiu atrás do ladrão com a roupa do corpo… só parou a perseguição depois de passar pela guarita e ouvir o grito de um assustado guarda: “Pra onde tu vai de cueca Zé Ferreira?”
Ao retornar, deu de cara com a multidão na frente da casa e foi obrigado a se esconder até que todos fossem dormir novamente.

José Ivandro, blogueiro, aprendiz de jornalista e colunista do Tribuna Mulungu.

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