Paulo Afonso, 23 de setembro de 2021

Cultura

Este jornal é meu revólver pra atirar em quem matou Alice

Dos muitos defeitos que tenho, dois são heranças típicas de minha mãe. O primeiro é o fato de alimentar certos assuntos só pra agradar ao interlocutor, mesmo que isso provoque enormes aborrecimentos. O outro, que até acho virtude nesses tempos de acirramentos presenciais e online, é a frouxidão pra encarar confusões, cujo ápice se deu no beco da igreja de Glória, ocasião em que eu fazia parte da turma que marcara uma briga com uma tropa rival e antes de começar desertei, fato que me excluiu definitivamente do convívio dos que preferiam socos com hora marcada aos sinos do entardecer.

Dito isto, já vou avisando que não contem comigo quando o bicho pegar. Sim, porque só quem acredita na redenção de Renan é que pode achar que não haverá uma revolta dos pastoris ideológicos quando a quermesse eleitoral começar, onde de um lado teremos o cordão encarnado defendendo com unhas e mortadela nos dentes a volta do principal culpado por essa zorra toda e, do outro, à turma da Nike amarela com farelos de coxinha sobre a 10 de Neymar, lutando pela permanência daquele cujo maior sonho é pendurar Lewandowski e cia. num pau de arara.

Portanto, entrincheirado entre o São Francisco e o roçado de Severino Namorador (que outro dia depois de tomar todas trocou sua moto num Voyage e só depois da ressaca viu ser o mesmo “carro desgraçado!” que já fora seu um dia), comunico que tirando uma espingarda enferrujada pra espantar raposas viciadas em guinés, o único revólver que este Durango Kid possui (como canta Milton na canção homônima) é este jornal, onde quinzenalmente disparo mais de 700 caracteres na direção daqueles que me honram, não para machucá-los, mas sim no propósito de distraí-los, mesmo em dias de uma triste e estúpida perda como a que conto a seguir.

Alice era uma dessas sobrinhas que a vida manda e a gente adota como se de fato fora. Estudava com minhas filhas e vivia por aqui com o rostinho rechonchudo fazendo caras e bocas pra lente da velha Nikon, num tempo em que fotos eram de papel e os braços que hoje clicam selfie, sem terem pra onde ir, viravam alça de bule na cintura de quem pousava.

Semana passada chegou à notícia de que agora ela é um dos mais de 520 mil corpos que os fanáticos pelo “mito” contam antes de o sono chegar, como se fossem carneirinhos sacrificados na intenção de salvar o mandato daquele que tudo pode.

Ela só tinha 32 anos e neste instante vejo-a sorrindo numa foto com Júlia e Luiza nos galhos de uma goiabeira, que assim como a Itabira de Drummond, como a Glória de minha infância e como a alegria de seus pais ao vê-la chegando toda serelepe da escola, agora é só uma imagem numa parede que já não suporta mais o peso de tantas vidas que ainda poderiam estar aqui se apenas uma não tivesse existido. Basta!

*Jânio Ferreira Soares é Secretário Municipal de Esportes e Cultura de Paulo Afonso e Colunista do jornal A Tarde.
Texto publicado no Jornal A TARDE de 03/07/2021

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