Paulo Afonso, 16 de junho de 2021

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As três barrigas da mãe de meus filhos

Por Jânio Ferreira*

A primeira só começou a tomar forma em outubro de 1988, apesar de a inquilina ter chegado por lá em agosto. É que no comecinho da gestação o bebê parece sem pressa, como se analisando se vale a pena progredir de um embrião pra um grãozinho de arroz e daí seguir seu destino lavradio, que logo o evoluirá pra um caroço de romã, feijão, murici, pitomba, umbu, abacate… até que, como no poema de João Cabral de Melo Neto, brota pro mundo numa explosão de vida franzina pra encantar (e endoidar) nossas lavouras.

E foi na balada dos ventos de agosto que algo saído de mim serviu de fio condutor pra levar uma parte do que viria a ser Luiza ao óvulo que Valéria havia liberado especialmente pra ela, dando início à formação do primeiro dos três enigmas que a ciência até explica, mas, infelizmente, não esclarece a origem.

E aí, na noite de 11 de abril de 1989, enquanto Gilberto Gil amarrava seu arado numa estrela na abertura de O Salvador da Pátria, Luiza deu sinais de que já passara da hora de mostrar suas bochechinhas de amora e lindamente nasceu.

A segunda foi tipo aquele presente que você só espera receber lá na frente, mas, por algum motivo, chega antes da hora. Com Valéria ainda amamentando, eis que aquela que se chamaria Júlia deve ter seguido as migalhas do pão que sua irmã mais velha deixou pra lhe mostrar o caminho e, no começo de setembro, soubemos de uma pitanguinha crescendo no roçado, com previsão de brotar em maio de 1990.

Assim, no dia 9 do mês que antecede a trezena de Santo Antônio da Glória (com minhas tias Letícia e Fernandina excomungando Collor e Zélia pelo confisco das poupanças que praticamente zerou as doações da festa), peguei a Belina 4×4 e partimos pelas estradas enlameadas pra Paulo Afonso, voltando de lá com um lindo pacotinho decorado com um laço de fita na cabeça, que é como presentes raros costumam chegar.

A terceira e última só veio cinco anos depois, quando pensávamos que o solo já tinha nos dado tudo que podia dar. Mas aí, como na canção Eu e a Brisa, o inesperado fez mais uma surpresa e em outubro de 1995, enquanto Luiza (7) e Júlia (6) se acabavam descendo na boquinha da famigerada garrafa (êita, como eu tinha vontade de enfiá-la nos orifícios cavernosos de Gugu e Faustão!), este locutor enviou uma semente Y com destino ao fértil cromossomo XX de Valéria, resultando num lindo milho verde com boca de cereja de nome Juca, que chegou aos meus braços em 21 de julho de 1996, dia do meu aniversário.

Acho que nem precisa dizer que este texto foi a forma que encontrei de homenagear a dona da barriga que abrigou esses deliciosos frutos, que amanhã – e sempre – derramarão sobre ela aquilo que chamamos amor.

A vida dói, mói, rói, mas é bela, minha velha. Feliz dia das mães e me perdoe por expô-la. Te amo.

*Jânio Ferreira Soares é Secretário Municipal de Esportes e Cultura de Paulo Afonso e Colunista do jornal A Tarde.

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